Fazer pamonha

Preparando minhas aulas de redação, deparei-me com o seguinte fragmento de texto – muito interessante – que servirá de base para nossa reflexão de hoje:

“De repente se começou a ter uma geração miojo: amor miojo, namoro miojo, estudo miojo, propriedade miojo. […] Tudo é veloz. Nós estamos vivendo, e isso é um perigo ético, uma estupenda e acelerada “despamonhalização” da vida. Nós paramos de fazer pamonha. E isso é um perigo. Sabe por quê? Porque, durante séculos na história da humanidade, fazer pamonha era conviver. […] Os homens iam buscar o milho, as crianças tiravam os cabelos do milho, as mulheres faziam o trabalho mais difícil, que era ralar o milho, cozinhar a palha, fazer o saquinho para colocar a pamonha e, quando era fim do dia, eles iam comer. A finalidade de fazer pamonha não era, obviamente, comer pamonha, a finalidade era ficar junto. E especialmente que as crianças tivessem uma ideia: de que as coisas, para acontecer, demoram um processo. […] Agora, é prático, a gente compra a pamonha pronta.” (CORTELLA, Mário Sérgio. In: ”Seminário Família, escola e cidadania: quais os caminhos?”. Florianópolis: Assembleia Legislativa de Santa Catarina, ago. 2007).

Infelizmente, devido à correria do dia a dia, da necessidade de trabalhar mais e de tantos compromissos que assumimos fora de casa, nossa vida está acelerada. É preciso correr para dar tempo de realizar tudo. Até o preparo das refeições é afetado: é preciso fazer coisas práticas e simples, que não demandem muito tempo. E todas as cobranças, especialmente no trabalho, são para “ontem”. Com isso tudo, não há como negar: o imediatismo tomou conta de nossa vida.

E, então, o texto acima recorda a prática de fazer pamonha – trata-se de um exemplo apenas, poderíamos pensar em tantas outras práticas que demandam tempo, esforço, paciência e dedicação para que tenham êxito. Fiquemos, hoje, com as pamonhas. O seu preparo necessita do esforço de várias pessoas e consome bastante tempo que, na opinião do autor, é educativo para as crianças no sentido de ensinar-lhes que certas coisas – normalmente as mais importantes – demoram um processo… Quantas vezes nós percebemos que nossos filhos querem as coisas na hora?! Se precisam de algo, insistem até que consigam o mais rapidamente possível. A noção de que cada coisa tem seu tempo certo, de que é preciso esperar para realizar certas tarefas (ou certas brincadeiras), de que o presente de Natal será entregue NO NATAL, de que tantas outras coisas que tomam tempo e exigem paciência (como a duração da missa dominical), tudo isso às vezes é atropelado pela ansiedade e pelo imediatismo que toma conta de nossa vida e que, nas crianças, é quase instintivo.

É preciso, então, mudar o ritmo com nossos pequenos para que eles comecem a entender a essência do processo de formação das coisas e, em última instância, da vida. “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus”, já dizia o Eclesiastes (3, 1). “Façamos pamonha” com eles; dediquenos tempo para construir algo. Há certas brincadeiras que demandam mais tempo que outras: montar um quebra-cabeça, jogar jogos de tabuleiro. Também cultivar uma árvore, aprender um instrumento musical… Sempre digo aos meus meninos: “Paciência, paciência. Para ser um ‘jedi’, você precisa de muita paciência” – fazendo referência à saga Star Wars que eles adoram…

“Fazer pamonha” também implica dividir tarefas, dado que é muito trabalhoso. Pensemos em que atividades podemos integrar nossas crianças a fim de que elas saibam que a sua colaboração é importante para que algo aconteça.

Tudo isso faz parte da educação para a vida.

Boa semana a todos!

Cristiane

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Sobre Cristiane

Cristiane é casada há 12 anos, tem 2 filhos e 1 filha. Atuante na Igreja desde sua juventude, participou de grupos de jovens (em Marília e Campinas, SP), Pastoral Universitária (em Campinas, SP) e Pastoral Familiar (em Niterói, RJ). Formada em Letras e Linguística, no momento trabalha como revisora de livros e artigos e como professora de redação.
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