Não se compra amor de filho

Li nesta semana uma entrevista na Revista Época com o escritor Sergio Sinai, especialista em vínculos humanos, na qual ele aborda várias questões importantes sobre a educação dos filhos nos dias de hoje. Ele não tem medo de criticar pais que não são presentes na vida dos filhos e que, muitas vezes, delegam a função de pais a escolas, televisão, computadores, babás etc. Segundo ele, vivemos uma “Sociedade dos Filhos Órfãos” (este inclusive é o título de seu mais novo livro). Sinai afirma que “acreditam que ser pai e mãe consiste em comprar coisas para os filhos, matriculá-los em escolas caras, dar celulares e computadores modernos.”

Tudo isso é, segundo Sergio Sinai, reflexo de nossa sociedade altamente utilitarista, que valoriza ao extremo os bens materiais: “Os pais correm atrás do material e descuidam de seus filhos que, por sua vez, aprendem a valorizar apenas o bem material. Essa é a fórmula para criar filhos materialistas.” […] “O carinho dos filhos não se compra. Amor se constrói com presença, atitudes e assumindo a responsabilidade de liderar o caminho dessa vida em direção à autonomia. Para isso, há que se estabelecer limites, marcar as fronteiras, frustrar. Criar e educar é também frustrar, ensinar que nem tudo é possível. Só assim se ensina a escolher. E só quem escolhe pode ser livre. Os pais, no entanto, têm medo de não ser simpáticos, então se esquecem de ser pais, que é o que os filhos precisam.”

É triste admitir que ele está certo! Quantos pais hoje em dia têm medo de decepcionar seus filhos e não impoem limites, não dizem não, não querem que os filhos se frustrem e, pela falta de tempo, quando estão com os filhos, tentam estabelecer o que acreditam ser “tempo de qualidade”, mas que, segundo Sergio Sinai, é outra “mentira” da modernidade:

“Não há qualidade sem quantidade. Em qualquer tarefa para alcançar qualidade é preciso tempo, compromisso, dedicação. O famoso “tempo de qualidade” de que falam muitos pais – e que inclusive tem o apoio de pediatras e psicólogos infantis – é uma desculpa para que os pais não se sintam culpados. Os pais são adultos e um adulto sabe que na vida não se pode tudo. Há que optar. Para dedicar tempo aos filhos, é preciso deixar outras coisas de lado. O “tempo de qualidade” são cinco minutos nos quais os pais culpados dão tudo aos filhos para evitar o conflito. Isso faz muito mal aos filhos. Se não há tempo, não há qualidade. E se não há tempo para os filhos, é preciso pensar antes de se tornar pais. Depois é tarde.”

Gostaria ainda de destacar o que ele afirma sobre a adolescência, cujo processo de amadurecimento exige dos pais presença e limites que vão se adequando com o passar dos anos, para que os filhos adquiram maturidade quando chegar a hora. “A infância e a adolescência são etapas muito breves da vida e necessárias para o amadurecimento biológico, psíquico e cognitivo. Seremos adultos a maior parte da nossa vida. A adolescência termina entre os 18 e os 19 anos. Quando os pais são ausentes ou não cumpriram suas funções, vemos adolescentes imaturos de 30 ou 40 anos. Se os pais pegam no leme do barco, e realizam esse trabalho com amor, ao fim da adolescência, seus filhos serão pessoas com ferramentas para caminhar pela vida. Terão muito por aprender ainda, mas terão boas bases e um bom sistema imunológico contra os principais perigos sociais. Os limites do controle vão mudando com a idade dos filhos e vão se flexibilizando até desaparecer por completo. Para saber quando e como modificá-los, há que estar presente.”

Quem quiser ler a entrevista completa, segue o link:

http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2012/08/02/para-dedicar-tempo-aos-filhos-e-preciso-deixar-outras-coisas-de-lado/

Que nesta Semana Nacional da Família, em que em muitas paróquias do Brasil os fiéis se reúnem para refletir sobre como vai a família e o que se pode fazer para melhorar as relações familiares, deixemos as palavras de Sergio Sinai ecoarem em nosso coração, para que possamos crescer como pais em responsabilidade e compromisso, para o benefício de nossos filhos.

Feliz Semana Nacional da Família para todos!

Cristiane

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Sobre Cristiane

Cristiane é casada há 12 anos, tem 2 filhos e 1 filha. Atuante na Igreja desde sua juventude, participou de grupos de jovens (em Marília e Campinas, SP), Pastoral Universitária (em Campinas, SP) e Pastoral Familiar (em Niterói, RJ). Formada em Letras e Linguística, no momento trabalha como revisora de livros e artigos e como professora de redação.
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4 respostas para Não se compra amor de filho

  1. Mari disse:

    Cris,
    Qta sabedoria !!!
    Essas palavras caíram como bálsamo na minha alma tão contrita hoje …
    Muito obrigada !
    Bjs

  2. Mariana O. C. Villas Bôas disse:

    Cristiane,
    Adorei o texto!!
    Apesar de muitas pessoas e revistas falarem o contrário, concordo plenamente com você, não existe qualidade sem quantidade.
    Um abraço
    Mariana

  3. Calina Barros de Oliveira Bertini disse:

    Cristiane,
    Adorei seu texto também. Numa vida moderna em que ambos pai e mãe têm que trabalhar fora, temos que encontrar um equilíbrio e abrir mão de algumas coisas para poder dar atenção e acompanhar a vida dos nossos filhos. Concordo também que além desta disponibilidade de tempo, temos que buscar meios de colocar limites aos nossos filhos e de ensinar a eles que a vida é repletas de frustrações, além daquelas necessárias e colocadas em casa.
    Um forte abraço,
    Calina Bertini

  4. Cris

    Não há qualidade sem dedicação de tempo, e para tempo há de se privar de algo pessoal. Concordo e agradeço a lembrança.

    Valdir

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