Chorando na sobremesa

Olá

 Todos sabem que a 2 anos falamos aqui sobre Familia&Trabalho. Recebi um recentemente um antigo artigo (ainda não tinha lido) do Prof Stephen Kanitz sobre nosso tema. Lí o artigo com a alegria de saber que estamos no caminho certo. Melhor do que falar sobre o artigo, reproduzo o mesmo na íntegra abaixo. Acreditem, vale a pena ler o todo – destaque para o penúltimo parágrafo:

 Há vinte anos presenciei uma cena que modificou radicalmente minha vida. Foi num almoço com um empresário respeitado e bem mais velho que eu. Ele era um dos poucos engajados no social, embora fosse pessoalmente um workaholic.

 O encontro foi na própria empresa, ele não tinhatempo para almoçar com a família em casa nem com os amigos num restaurante. Os amigos tinham de ir até ele.

 Seus olhos estavam estranhos, achei até que vi uma lágrima no olho esquerdo. Bobagem minha pensei, homens não choram, especialmente na frente de outros.

 Mas durante a sobremesa ele começou a chorar copiosamente. Fiquei imaginando o que eu poderia ter dito de errado. Supus que ele tivesse lembrado dos impostos pagos no dia, impostos que ele sabia que nunca seriam usados para o social.

 “Minha filha vai se casar amanhã”, disse sem jeito, “e só agora a ficha caiu. Eu fui um tremendo de um workaholic e agora percebo que mal a conheci. Conheço tudo sobre meu negócio, mal conheço minha própria filha. Dediquei todo o tempo a minha empresa e me esqueci de me dedicar à família.”

 Voltei para casa arrasado. Por meses eu me lembrava dessa cena patética e sonhava com ela. Prometi a mim mesmo e a minha esposa que nunca aceitaria seguir uma carreira assim.

 Colocar a família em primeiro lugar não é uma proposição ética tão óbvia, trivial, nem tão aceita por aí. Basta entrar na internet e você encontrará milhares de artigos que lhe dirão para colocar em primeiro lugar os outros – a sociedade, os amigos, o dever, o trabalho, o cliente, raramente a família.

 Normalmente, a grande discussão é como conciliar o conflito entre trabalho e família, e a saída salomônica é afirmar que dá para fazer ambos. Será?

 O cinema americano vive mostrando o clichê do executivo atarefado que não consegue chegar a tempo à peça de teatro da filha ou ao campeonato mirim de seu filho. Ele se atrasou justamente porque tentou “conciliar” trabalho e família. Só que surgiu um imprevisto de última hora, e a cena termina com o pai contando uma mentira ou dando uma desculpa esfarrapada.

 Se tivesse colocado a família em primeiro lugar, esse executivo teria chegado a tempo, teria levado pessoalmente a criança ao evento, teria dado a ela o suporte psicológico necessário nos momentos de angústia que antecedem um teatro ou um jogo.

 A questão é justamente essa. Se você, como eu e a grande maioria das pessoas, tem de “conciliar” família com amigos, trabalho, carreira ou política, é imprescindível determinar, muito antes das inevitáveis crises, quem você prioriza e coloca em primeiro lugar. Você não terá de tomar difíceis decisões de lealdade na última hora, pois a opção já terá sido previamente discutida e emocionalmente internalizada.

 Na época pensava deixar de ser professor da USP, apesar do ambiente tranqüilo e dos três meses de férias que a carreira proporcionava. Mas aquele almoço me fez ficar, para desespero de meus alunos.

 Colocar a família em primeiro lugar tem um custo com o qual nem todos podem arcar. Implica menos dinheiro, fama e projeção social. Muitos de seus amigos poderão ficar ricos, mais famosos que você e um dia olhá-lo com desdém. Nessas horas, o consolo é lembrar um velho ditado que define bem por que priorizar a família vale a pena: “Nenhum sucesso na vida compensa um fracasso no lar”.

 Qual o verdadeiro “sucesso” de ter um filho drogado por falta de atenção, carinho e tempo para ouvi-lo no dia a dia? De que adianta fazer uma fortuna para ter de dividi-la pela metade num ruinoso divórcio e pagar pensão à ex-esposa para o resto da vida? De que adianta ser um executivo bem-sucedido e depois chorar na sobremesa porque não conheceu sequer a própria filha?

fonte: http://www.kanitz.com.br/veja/familia.asp

BOA SEMANA A TODOS !

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Sobre Marco

Marco é casado com Mariana e tem os pequenos Carol e Rafael. Ele é formado em Tecnologia da Informação, pós graduado em administração e trabalha há 14 anos no mercado corporativo de TI. Atua na Igreja Católica desde a adolescência, participando de grupo de jovens, ministérios de música e equipes de evangelização. Está na pastoral da familia da paróquia Nossa Senhora do Brasil desde 2007, atuando junto às familias e aos casais que buscam o matrimônio.
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2 respostas para Chorando na sobremesa

  1. vreginato disse:

    Marco

    Passei uma experiência semelhante ao seu protagonista. Certa vez perguntei a um executivo há quanto tempo não tirava férias de verdade, não emenda de feriado. Ele disse, após algum esforço de memória, que fora quando sua filha tinha uns sete anos.
    “- E quanto tem agora?” Perguntei.
    “- Está com quinze, ou dezeseis… disse inseguro.”
    Recomendei para a sua “doença” o remédio das férias com a família.
    No retorno voltou assombrado.
    “- Não sabia que já tinha uma moça em casa, e ainda convivia comigo com a idéia de uma menina!!”
    Moral da história:
    Os filhos não esperam para crescer na dependência das necessidades e tarefas dos pais.

    Abraço

    Valdir

  2. Alessandra de Angelis disse:

    Marco,
    Achei excelente o texto, até pq. conheço muito bem o trabalho e artigos do Kanitz. Como sempre trabalhei com altos executivos, desde os 18 anos e olha que já estou a caminho dos 38….risos… posso dizer que infelizmente a maioria não coloca a família em primeiro lugar; muito pelo contrário: ela está sempre em último. Aniversário de filhos e esposas, quem normalmente faz a compra dos presentes, são as secretárias, como eu. Eles não se lembram de datas importantes, como aniversário de casamento, dos filhos, da esposa, da própria mãe. Tudo isso, somos nós secretárias quem geralmente os lembra. Uma pena!!! Pois trabalhei com um grande executivo, extremamente inteligente, que não entedia um pequeno problema que o filho dele tinha; consultou diversos médicos, especialistas no exterior, mas no fundo, eu e a esposa dele sabíamos que o maior problema e talvez único, era a falta de amor e carinho pelo próprio filho.

    Portanto, faço aqui um apelo aos workaholics: não dêem tanto valor ao trabalho, pois um dia vc. poderá ser substituído por outro profissional…. se preocupe mais em estar com seus familiares, pois muitas vezes, do dia para a noite, eles podem não estar mais entre nós. Pensem nisso!!!

    Abraços e boa semana a todos!
    Alessandra de Angelis

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