O QUE FAZER COM A CAMISETA?

No último Domingo, sai do curso de Batismo na Igreja Nossa Senhora do Brasil e passei na Igreja para despedir-me do Santíssimo. Ao entrar deparei com uma colega do grupo da Pastoral da Família que estava assistindo a Missa, já na parte após a comunhão, aguardando a benção final. Ela dirigiu-se a mim e disse:

“ – Dr Valdir, tem um garoto de uns treze anos assistindo a Missa com o pai lá trás com uma camiseta que apresenta na estampa uma mulher nua! Falamos com ele?”

O episódio leva a uma reflexão que gostaria de compartilhar com os leitores desta coluna, pois aqui estão inseridos temas da Palavra da Igreja, Rezar em Família, Educação dos filhos, e até sobre o lazer cristão.

Por que um garoto de treze anos usa uma camiseta com esta estampa? E mais, vai assistir a Santa Missa com ela? E mais, não está sozinho, mas em companhia do pai (se não com certeza, muito provável seria).

As três questões exigiriam uma ampla análise que conduz para um mesmo fim, sem dúvida, e não são tranqüilas em toda a sua diversidade de temas que transitam neste “simples” episódio.

Algumas respostas mais imediatistas poderiam ser:

“ Cada um usa o que quer, deixa para lá…”

“É melhor um garoto de 13 anos ir a missa usando uma camiseta assim, do que ficar em casa vendo pornografia, ou usando crack na rua…”

“ Eu não tenho nada a ver com isso, ele está com o pai, que se entendam…”

“É melhor ir tirar satisfação, porque isto não se usa numa igreja e nem fora dela…”

“ Chamar a atenção do pai, como responsável pelo garoto. Afinal que usem o que quiserem fora da Igreja, mas não na Missa…”

“Procurar “conversar” sobre o que eles pensam a respeito de usar aquela roupa na Missa…”

“Referir que se sente ofendida, porque não pode ver aquilo dentro da Igreja sem se sentir ofendida e ofender a Deus…”

“ E se o pai arruma uma encrenca no meio da Igreja? Ou até mesmo o garoto. Porque não é da sua conta…”

“É melhor falar para o padre, e ele decide o que fazer…”

“Lamentar-se, mas no fundo não sei o que fazer, o mundo está perdido…”

Poderíamos ainda enumerar outras respostas, mas vamos parar por aqui. O que está em jogo neste episódio?

Uma ofensa a Deus? A ignorância do garoto ou do pai? A omissão da Igreja (que somos todos nós)? O atrevimento ofensivo voluntário? Chamar a atenção? Uma atitude de rebeldia contra a Igreja? Estamos nos acostumando a tudo e não há mais critério ou discernimento? Vivemos o “libero” geral?…

Muitas das afirmações acima não são excludentes, mas podem perfeitamente estar associadas. O que se posiciona agora é outra questão. Queremos reprimir a atitude inconveniente (afrontosa) do garoto? Queremos reprimir a educação do pai? Queremos procurar orientar o pai e o garoto? Devemos acolher os dois (papel da Igreja), mas sem deixar de informar sobre o que está errado?

Percebemos que um episódio que pode ter passado despercebido por tantos que estavam na Igreja, para outros resultou em escândalo, (mas nada fizeram), para muitos ficou a tristeza, mas sem saber o que fazer e, infelizmente, alguns possam até ter achado “engraçado” ou “curioso”…

O que se constata é que o episódio NÃO pode ficar indiferente a um católico que está participando de uma Missa em companhia da situação descrita. Estamos nos acostumando cada vez mais a acreditar no que vivemos, pois deixamos de viver o que acreditamos. O discernimento do certo e errado mora num “cinza” de indefinições, onde o preto e o branco são chamados de “radicais”. A tolerância passou a ser sinônimo de falta de censura a tudo, e o relativismo é o canal que norteia a liberdade humana.

Chegamos a situações em que a crítica não é mais vista como educativa, mas sempre como julgamento, e de preferência preconceituosa e de caráter discriminativo a este ou aquele assunto. Nada mais pode ser dito, pois temos que respirar uma atmosfera de “liberdades democráticas” onde manda mais quem tem mais posses ou poder e não mais a verdade.

Como um garoto de treze anos chegou a ir a Igreja, assistir uma Missa na companhia do pai, com uma roupa totalmente inadequada (por dizer assim), não é um fato isolado. Nada acontece do dia para a noite. Este é um sinal como a ponta de um “ iceberg”, que esconde uma enorme  massa que está fora da vista, mas que dá sustentação aquela pequena parte do gelo. Não foi uma decisão isolada do garoto, e não foi também porque se saiu atrasado para não perder a Missa, que alguém coloca uma camiseta assim. Antes disso, muitas “águas rolaram” naquela família para que isto pudesse acontecer.

Cabe a nós católicos não ficarmos assistindo a isto INDIFERENTES, com o risco de sermos “vomitados da boca” num tempo futuro. Se Cristo não veio para condenar, e sim para acolher o pecador como Madalena, também é verdade que Ele falou: “ Vai e não peques mais”.  

A melhor maneira de se portar diante deste episódio é a questão que deixo para todos refletirem, mas sem dúvida é preciso ao menos pensar no assunto…

Boa semana

Valdir

 

 

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Sobre vreginato

Casado e tem três filhos. Médico e Terapêuta de Família. Professor de Bioética, Históra da Medicina e Espiritualidade e Mediicna na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), membro do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da Unifesp, Coordenador da Pastoral da Família da Paróquia Nossa Senhora do Brasil
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3 respostas para O QUE FAZER COM A CAMISETA?

  1. Luiz Coelho disse:

    BOA TARDE…

    Me desculpem, mas eu gosto muito mais de post(s) como estes, onde há mais perguntas e dúvidas do que respostas…pois deixa claro que praticamente TUDO pode, e deve, ser revisto, reanalisado, repensado, reaprendido….questionado !

    “..uma camiseta que apresenta na estampa uma mulher nua..”…

    Alguém já viu as pinturas da capela Sistina ?…A tela o Nascimento de Vênus ( de Boticelli ), e muitas outras pinturas e esculturas do complexo do Vaticano ? Quantas mulheres ( e homens ) nus estão explicitamente expostos nas igrejas espalhadas pelo mundo ?

    Se a camiseta estivesse estampada a expulsão do paraíso de Adão e Eva ( nus ) ( da capela Sistina ) ou o homem nu, na célebre pintura de Deus quase tocando-o no teto da capela….ou A escultura de David ( de Michelangelo ) ou da Virgem Maria, com os seios à mostra amamentando o menino Jesus, e tantas outras; seriam consideradas estampas imprópria para a missa ?

    Quando a nudez é arte e quando não é ?…Quando o “sexo” é belo e quando não é ? Apenas quando retrata imagens sacras ? As obras sagradas perderam a “inconveniência” e o “desconforto” da nudez pela sua notoriedade ou aceitação da igreja ? Quem está em pecado e quem não esta ?

    Faço minha ( pedindo licença ) as palavras do Valdir…A melhor maneira de se portar diante deste episódio é a questão que deixo para todos refletirem, mas sem dúvida é preciso ao menos pensar MUITO no assunto…

    Abraço

  2. Giba disse:

    Sem dúvida o contexto de vida desse rapaz tem de ser considerado.
    Talvez não responda diretamente ao questionamento do título mas gostaria de refletir bevemente sobre um tema semelhante. A “ultima moda” das garotas dita trajes curtos com meias calças chamativas.
    Crianças, ate mesmo adolescentes, poucas vezes compram roupas sozinhas.
    A educação dos filhos cabe aos pais em primeiro lugar.
    Fico imaginando que tanto esses trajes delas, como a referida camiseta fazem exatamenta a mesma coisa. Ofendem a figura feminina, coisificando-a. Assim deve ser “consumida” e não AMADA.
    Onde está a dignidade das mulheres como pessoa? Não apenas um corpo bonito (e criado por Deus mas com finalidade digna para isso) Onde está a orientação dos pais nesse sentido, ajudando seus filhos para que cometam o menor numero de erros inuteis possiveis?
    ESTAMOS EDUCANDO CRIANÇAS PARA QUE CONSUMAM “CORPOS”? O consumismo atual dos objetos já esta saturado…. coisifiquemos as pessoas para seus corpos sejam consumidos tb? Isso está certo de alguma forma? Vai trazer felicidade para alguem? Em que lógica?
    Ouvi muito na infancia que as pessoas exteriorizam o que tem em abundancia dento de si.
    Fico preocupado com as manfestações exteriores desta juventude. Que valores estamos nós passando para eles? Ou não passando mas pelo menos, permitindo?
    Realidades destorcidas nunca trazem soluções acertadas. Quem planta macieira colhe maça. Não pode colher milho. A realidade é essa.
    Se plantamos sexualidade por si só; sem começo, meio e fim, na cabeça de alguem não podemos esperar uma historia de Amor como foi desenhado para ser. Obteremos só sexo, como um exercicio. Triste isso. Não Feliz. No final, triste apenas.

  3. Renata disse:

    Meus caros, dando continuidade à discussão… frequento as missas da Brasil e estou cada dia mais tentada a cometer pecados durante as missas em decorrência de algumas das coisas que eu acho inadequadas.

    1) Roupa. Existem pessoas que se vestem de forma inadequada por desconhecimento e outras por considerar que deve ser recebida na casa de Deus com qualquer roupa. Em alguns países da Europa há pessoas nas portas da igreja proibindo pessoas de entrar dependendo da roupa. Há também placas nas portas com as orientações da igreja. Como orientamos nossos fieis hoje? Poderíamos colocar placas na porta da igreja.

    2) Atitude. Não há orientação também com a forma de se comportar na igreja. Já vi muita gente comungando errado, já vi gente com o pé no banco, já vi adolecente deitado no banco brincando de tocar corneta durante a Liturgia Eucarístca.

    3) Crianças. Há muitas crianças que falam e choram alto durante a missa, o que atrapalha as poucas pessoas que estão meditando e participando de coração. Entendo que deveria haver dois tipos de orientação (i) as pessoas com crianças se mantenham perto das portas. No caso delas chorarem, a leve para fora; (ii) fazer um horário de missa no domingo para os pais com crianças pequenas, assim eles se encontram e ficam mais a vontade para encarar este tipo de situação.

    Muito da falta de respeito em relação ao nosso momento de fé é culpa dos próprios católicos que orientam mal as pessoas que frequentam suas missas. Poderíamos destacar voluntários para orientar fieis aos domingos e missas solenes.

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