Educados por terceiros

É muito comum em nossos dias o modelo de família onde as mães trabalham fora de casa, deixando os filhos por mais tempo nas escolas ou confiando-os a alguma auxiliar no lar. Os motivos desta opção abrangem desde a necessidade financeira, em função dos padrões de vida que se deseja proporcionar aos filhos, como também questões culturais de igualdade de direitos entre homem e mulher, fazendo com que estas adentrem o mundo dos serviços na sociedade. Muitas mães até gostariam de estar mais tempo na presença dos filhos, mas o anseio por desenvolverem-se numa profissão acaba lhes dificultando tal escolha.

A opção por trabalhar fora de casa é mais sentida pelos filhos na primeira infância, uma vez que eles acabam passando o dia inteiro sob os cuidados de babás, com quem acabam criando muitos laços afetivos. Não poucas vezes, estas funcionárias do lar interferem na formação da criança de uma maneira não muito conveniente, pois incutem nos pequenos alguns valores e comportamentos que não são próprios dos pais. Mesmo os bebês ou crianças pequenas que passam o dia em berçários ou escolinhas, estão sujeitos a este tipo de influência. Toda atenção deve ser dada na busca de pessoas nas quais se possa confiar.

A Exortação Apostólica “Familiaris Consortio” publicada pelo Papa João Paulo II em 1981 nos esclarece: “Os pais, que transmitiram a vida aos filhos, têm uma gravíssima obrigação de educar a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores. Esta função educativa é de tanto peso que, onde não existir, dificilmente poderá ser suprida. … O direito-dever educativo dos pais qualifica-se como essencial, ligado como está à transmissão da vida humana; como original e primário, em relação ao dever de educar dos outros, pela unicidade da relação de amor que subsiste entre pais e filhos; como insubstituível e inalienável, e, portanto, não delegável totalmente a outros ou por outros usurpável.”

É triste observarmos os casos de inúmeros pais que entregam seus filhos dormindo pela manhã num berçário e quando retornam do trabalho tarde da noite, já os encontram dormindo novamente. Não é possível exercer o papel de primeiros e principais educadores sem ter tempo para uma sadia convivência com os filhos. A vida profissional não pode ser prioritária em relação à formação dos filhos, formação esta que deve ser integral e não apenas intelectual numa escola. As instituições ou babás, por melhores que sejam, não podem ser as formadoras de consciência de nossos filhos.

Uma reportagem do Jornal Hoje da Rede Globo de 06/04/11 abordou os dados de uma pesquisa relacionada com o assunto aqui abordado. A quase totalidade das crianças aprova que ambos os pais trabalhem fora de casa, mas revelaram que sentem saudades e falta de apoio em algumas atividades, como, por exemplo, uma ajuda numa dúvida de tarefas. O sofrimento com a ausência dos pais é mais sentido por aqueles que são menores de 7 anos. Também a quase totalidade das mães entrevistadas sofrem com algum tipo de culpa por não poderem estar por mais tempo com seus filhos. Um vídeo com esta reportagem pode ser visto acessando-se o link: http://g1.globo.com/videos/jornal-hoje/v/pesquisa-mostra-que-os-filhos-lidam-bem-com-o-trabalho-dos-pais/1478325/#/Edi%C3%A7%C3%B5es/20110406/page/1

 

Para a grande maioria dos casos, o trabalho das mães fora de casa não se constitui de uma opção e sim de uma necessidade para o orçamento familiar. Entretanto, é preciso criar uma consciência de que o trabalho no lar, acompanhado de uma conseqüente maior convivência com os filhos, não é motivo de desvalorização para a mulher. Talvez a opção de um trabalho com uma jornada parcial possa ajudar na amenização da situação.

Para terminar, deixo um breve testemunho de nossa opção de vida. Eu e a Rosana somos casados há 15 anos, temos três filhos atualmente com 13, 11 e 10 anos de idade, e, por ocasião de seus nascimentos, tomamos tranquilamente a decisão da dedicação da Rosana para eles, deixando por aquele momento sua profissão de professora de português. Foi uma ótima opção para a vida de nossos filhos, de forma que não nos arrependemos em nada por termos agido assim. Se por um lado temos a consciência de que não podemos lhes oferecer tudo o que teriam se os dois trabalhassem, por outro temos a certeza de que o essencial eles estão tendo e podendo acima de tudo contar com a presença materna mais intensa junto deles.

 

Abraços e até a próxima semana.

 

Heraldo

 

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2 respostas para Educados por terceiros

  1. Mari disse:

    Maravilhoso post, como sempre !
    Este é meu assunto diário …
    Abraços a todos !

  2. Manu disse:

    Heraldo o texto é muito oportuno a todos nós, não só como testemunho que você dá ,mas também para reflexão de todas as famílias. Tenho visto muitos casais pensarem em fazer essa retomada da esposa, que por opção faz uma pausa na carreira ou trabalha somente uma parte do dia. Mas que dão preferência a educação dos filhos.
    Comigo também aconteceu algo parecido, meus pais decidiram dar prioridade a vida mais familiar, então minha mãe deixou o trabalho para cuidar de mim. Por 13 anos minha mãe cuidou da minha formação pessoal e sempre me acompanhava a escola e reuniões. Passados esses anos ela voltou trabalhar, é claro que as pessoas podem achar radical essa posição. Mas por experiência própria posso dizer o quanto foi bom esse despreendimento dos meus pais em prol da minha formação pessoal. Tenho certeza que eles não se arrependeram dessa decisão. Pois o momento em que passamos juntos foi inesquecível. Como diz Pe. Zezinho em sua linda música Utopia:
    ” Das muitas coisas
    Do meu tempo de criança
    Guardo vivo na lembrança
    O aconchego de meu lar
    No fim da tarde
    Quando tudo se aquietava
    A família se ajuntava
    Lá no alpendre a conversar

    Meus pais não tinham
    Nem escola e nem dinheiro
    Todo dia o ano inteiro
    Trabalhavam sem parar
    Faltava tudo
    Mas a gente nem ligava
    O importante não faltava
    Seu sorriso, seu olhar

    Eu tantas vezes
    Vi meu pai chegar cansado
    Mas aquilo era sagrado
    Um por um ele afagava
    E perguntava
    Quem fizera estrepolia
    E mamãe nos defendia
    E tudo aos poucos se ajeitava

    O sol se punha
    A viola alguém trazia
    Todo mundo então pedia
    Ver papai cantar pra gente
    Desafinado
    Meio rouco e voz cansada
    Ele cantava mil toadas
    Seu olhar no sol poente

    Correu o tempo
    E eu vejo a maravilha
    De se ter uma família
    Enquanto muitos não a tem
    Agora falam
    Do desquite ou do divórcio
    O amor virou consórcio
    Compromisso de ninguém

    Há tantos filhos
    Que bem mais do que um palácio
    Gostariam de um abraço
    E do carinho entre seus pais
    Se os pais amassem
    O divórcio não viria
    Chame a isso de utopia
    Eu a isso chamo paz.”

    Essa é uam música que resume bem minha infância.

    Abraço a todos.

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