A experiência humana do sofrimento

“A enfermidade é sempre uma profunda experiência humana e uma relação especial com a providência divina”. Com estas palavras o arcebispo emérito de São Paulo, cardeal dom Paulo Evaristo Arns, 89 anos falou ao Jornal O SÃO PAULO, após uma permanência de 19 dias de hospitalização.

Este é um tema que enfrento com bastante frequência , como médico. O mistério do sofrimento provocado pela doença de uma maneira incompreensível, muitas vezes. São situações em que as pessoas ficam perguntando repetidamente “por quê?”, sem encontrar uma resposta.

Realmente não é possível encontar uma resposta a uma mãe que vê sua filha em plena infância, padecer de um sofrimento provocado por uma acidente inesperado. Como responder a um esposo, a enfermidade que acomete a sua jovem esposa de modo repentino e grave, sem qualquer antecedente aparente. Como consolar ao jovem formado e de futuro brilhante projetado, a interrupção por uma doença de tamanha gravidade a mudar o rumo de seus sonhos… Não teremos “porques”.Nessas horas é necessário não brigar consigo mesmo, e muito menos desesperar de Deus, mas antes de mais nada pedir ajuda para poder fazer aquilo que é possível para perseverar.

A história de Jó na Bíblia é bem conhecida: “paciência de Jó!”A maneira de como ele perdeu tudo, sem explicações, e rapidamente, chegando a ficar com o corpo chagado. Mas permaneceu na fé. Ao fim da provação, Jó recebe de volta e mais do que perdera. A história de Jó deve despertar-nos esta luta por permanecer com Deus, no incompreensível, no inexplicável, no “desespero humano”, mas que não pode levar ao desespero de Deus.

As explicações muitas vezes oferecidas por certas crenças, como de castigo ou reparação, não podem ser evocadas a tantas situações onde nunca  se pode ver nisso uma “vingança divina”. Ele, o próprio Deus, se fez homem e foi crucificado sem causa de justiça. Nada fora constatado de errado pelo juiz – Pilatos – e todos conhecemos a sequência dos acontecimentos. Mais inexplicável é ouvir Sua solicitação de perdão aqueles que O estavam crucificando, porque não sabiam o que estavam fazendo.

Nós também, dentro da nossa limitação humana, não alcançaremos nesta vida  uma explicação para tudo. Mas temos a ressurreição salvadora em Cristo que alimenta a nossa Fé para a Esperança da vida eterna.

Não se pode abandonar a Cristo diante do sacríficio. Não se deve também confortar ao que sofre lembrando que outros sofrem mais. A cada um cabe a sua dor incomparável, e que só poderá encontrar consolo no coração do Senhor, que reuni todas as dores da humanidade.

O sofrimento promovido pela enfermidade produz , sem dúvida, uma experiência humana única, mas que deve nos conduzir a uma experiência com o divino. Não se conhece na história ninguém que tenha alcançado as portas do céus, que não tenha passado pelo caminho da dor. E aqueles que mais souberam sofrer compartilhando a cruz de Cristo, paradoxalmente, alcançaram maior alegria diante da vida e de Deus. Este é o paradoxo que caracteriza o cristão , esta cruz da dor transformada por Cristo em amor , alegria e redenção.

Aprender com as pequenas contrariedades  de experiências vividas no cotidiano, até situações de maior sofrimento, pode se tornar este “exercício espiritual” de nos fazer mais próximos de Deus, conforme nos afirmou dom Paulo.

Até a semana que vem

Valdir

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Sobre vreginato

Casado e tem três filhos. Médico e Terapêuta de Família. Professor de Bioética, Históra da Medicina e Espiritualidade e Mediicna na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), membro do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da Unifesp, Coordenador da Pastoral da Família da Paróquia Nossa Senhora do Brasil
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7 respostas para A experiência humana do sofrimento

  1. Lutfe Mohamed Yunes disse:

    Valdir, sou exemplo vivo de suas palavras. O quanto não cresci na dor, pelo simples fato de quem me carregava e me dava ânimo e esperança para vida era Deus, por meio de seu filho Jesus Cristo… Nossa Senhora sempre foi uma companhia viva nos momentos de dor também… Abraços, obrigado pelas palavras. Lutfe

  2. Luiz Coelho disse:

    Boa tarde…

    Desde que me conheço, sempre achei estranha a necessidade do sofrimento para se alcançar um determinado propósito !

    Uma dificuldade momentânea, um revés temporário, uma certa resistência; é extremamente necessário para construir um caráter, moldar idéias e tornar diamantes os “carvões humanos” !….mas DOR, penalidade, sofrimento…isso sempre me pareceu um sentinento masoquista !!!

    Há uma lenda que um monge, próximo de se aposentar, precisava encontrar um sucessor. Entre seus discípulos, dois já haviam dado mostras de que eram os mais aptos, mas apenas um o poderia. Para sanar as dúvidas, o mestre lançou um desafio, para por a sabedoria dos dois à prova: ambos receberiam alguns grãos de feijão, que deveriam colocar dentro dos sapatos, para então empreender a subida de uma grande montanha.
    Dia e hora marcado, começa a prova. Nos primeiros quilômetros, um dos discípulos começou a mancar. No meio da subida, parou e tirou os sapatos. As bolhas em seus pés já sangravam, causando imensa dor. Ficou para trás, observando seu oponente sumir de vista.
    Prova encerrada, todos de volta ao pé da montanha, para ouvir do monge o óbvio anúncio. Após o festejo, o derrotado aproxima-se e pergunta como é que ele havia conseguido subir e descer com os feijões nos sapatos:
    – Antes de colocá-los no sapato, eu os cozinhei.

    “Carregar feijões nos sapatos” ou passar por dificuldades e provações sempre farão parte de nossas vidas, mas há sempre um jeito mais fácil e lógico de resolvê-los, sem que precisemos sofrer. Problemas são inevitáveis. Já a duração do sofrimento, somos nós quem determinamos.

    Valdir…li “O Sonho de um homem ridículo” de Fiodor Dostoievski….( tive um conceito bem diferente que no futuro poderemos conversar )….mas no assunto deste post, outra frase dele me parece bem apropriada :

    “Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão.”

    Para terminar, gosto muito deste Texto de Drummond.

    Abraço

  3. vreginato disse:

    Luiz

    Obrigado pela contribuição. Esta frase é bem conhecida:” A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. É fato, e isto eu já ouvi de uma paciente que tem uma fé incrível, e que já teve vários tipos de câncer, com muitas cirurgias, quimioterapia, radioterapia e o que mais você possa imaginar.Ela tem autoridade para falar. Contudo, para ela o sofrimento deixava de perseverar pelo amor que ela conseguia encontrar na sua fé, no seu caso católica, que estava em Cristo. A dor, ela afirmava com Drumond, é fato, mas o sofrimento eu supero na fé.
    Não nego que em trinta anos de medicina não encontrei muitos pacientes como esta senhora. A poesia de Drumond, com todo o respeito ao valor do poeta, nos passa, as vezes, a visão de um sofrimento fruto do egoísmo. Tem sua razão filosófica, mas na prática, onde nem sempre a vida parece um poema, não se é tão fácil ler assim.

    Poderia ficar falando aqui por horas de exemplos, em que a poesia desaparece da vida, e todos nós estamos constantemente acompanhando casos na mídia. Haja vista as últimas catástrofes no Rio em que em uma família sobrou um filho órfão com a morte dos pais e irmãos, e por ai vai. Falar ao garoto sobrevivente que este sofrimento é um egoísmo não vivido, não é fácil! Assim como também não é uma atitude masoquista.

    Fico mais com João Paulo II: “O sofrimento é um mistério”.

    Abraços

    Valdir

  4. vreginato disse:

    Luiz

    Em tempo. Nestes casos citados das catástrofes, ou de uma doença súbita, ou um acidente, penso que não dá tempo de cozinhar os feijões sozinhos. É preciso buscar algo mais, que percebo, as pessoas encontram na fé.

    Valdir

  5. Luiz Coelho disse:

    Quando disse masoquista, me referia as pessoas que, por livre e espontânea vontade, ou por “sugestões de terceiros; aplicam em si mesmas, condicões de sofrimento ( físico, mental, emocional, etc ); de forma que estariam se “purificando” , ou que estariam mais próximas de Deus…..Apenas quis distinguir o sofrimento fortuito do provocado intensionalmente !!!

    Já existe bastante dor no mundo sem que pessoas busquem a “cura” de seus problemas pela auto-punição….Jesus já se sacrificou por nós…não há sentido algum em criarmos mecanismos de punição ( jejuns, caminhar ajoelhados, penitências diversas, etc ).

    Conhece a frase de Albert Einstein “Deus não joga dados ! “ ?….Por que pessoas tão boas passam por situações de dor, enquanto que outras ( não tão boas ); não sofrem com tantas mazelas ? Se ainda não conhece, recomendo a leitura do livro “Quando coisas ruins acontecem à pessoas boas” de Harold Kushner…..

    Quando tudo está correndo sem problemas graves, nos dizemos cristãos…mas quando uma catástrofe súbita nos atinge como uma flecha certeira, nos esquecemos do que realmente é importante e divino e que nos foi ensinado….a caridade; e não apenas a fé ! ( Está ai o egoísmo de Drummond que muitos se apegam ) !

    A caridade é um bálsamo para a nossa própria dor. Ajuda a retirar o peso do nosso fardo, tornando-o mais leve, pois o sofrimento é como uma doença, quando nos concentramos nele, se torna insuportável e desesperador. Porém, se dividirmos nosso pensamento com o próximo, esqueceremos um pouco da nossa prisão e nos libertaremos momentaneamente. “..Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta..” ( Tg 2,26 )

    As pessoas se esquecem que nós somos meros mortais, e que nossas vidas podem acabar em fração de segundos.. Todos querem viver no topo da montanha ( sem problemas ), mas toda felicidade e crescimento ocorre na “escalanda” aonde tropeçamos e nos “ferimos”… Acredito que devamos dar mais importância as pessoas e as coisas que encontramos neste nosso trajeto, e que nos fazem felizes, pois não existe um caminho para a felicidade, pois a felicidade é o próprio caminho…( sem sofrimento )

    Abraço

  6. Marco disse:

    Olá Luiz

    Imagino que você fale do fato do jejum e penitência, qdo refere-se a “formas de purificação”. Podemos discutir isso mais a fundo na possível pizzada mas Jesus mesmo, em seus Evangelhos nos adverte: “orai e jejuai para não caires em tentação
    Porém gostaria de citar (também) um grande vivenciador da Palavra de Deus, chamado Eugênio Jorge, sobre o sofrimento:
    Jesus veio dar um novo sentido ao sofrimento. O sofrimento de Jesus na cruz foi redentor. Existem dois tipos de sofrimento: Há pessoas que sofrem por sofrer; e esse sofrimento não tem valor algum. E há pessoas que sofrem por amar; e porque amam, oferecem seu sofrimento, e seu sofrimento se torna sacrifício e isto é redentor (…) E é isso que devemos pedir a Jesus, que Ele nos ensine a transformar nosso sofrimento em sacrifício redentor…
    Esta frase me faz lembrar do primeiro encontro que a pastoral da família fez na paróquia NSBrasil e no final tivemos um testemunho de uma família que tinha uma vida muito tranquila (aparentemente com tudo que queria) mas foi quando um sofrimento muito grande acometeu aquela familia foi que eles (nas próprias palavras da mãe daquela familia) “foi esse sofrimento que nos fez entender o que realmente importa na vida. Não tinhamos essa noção até então“.
    Abaixo uma música do próprio Eugenio Jorge, ilustrando um pouco mais o tema:

  7. Rogerio disse:

    Interessante os comentários…

    Imagino que não exista outra forma do ser humano entender a vida do que pelo sofrimento… olha o caso do Egito. Precisaram sofrer por 30 anos para resolver ir para as ruas clamar por justiça…
    Sobre o vídeo do Drummond, eu me lembro de uma entrevista da esposa dele, logo quando ele morreu. Ela disse naquele dia que ele nunca viveu o que escreveu. Ela nunca viu aquele amor que ele tanto escreveu em seus poemas. Ele era uma pessoa amarga…

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