Falando sobre a morte

Falar sobre a morte com uma criança não é nada fácil, ainda mais quando ela acontece com algum membro da família, ente querido ou amigo. Entretanto, é preciso aproveitar cada momento para ensinar aos filhos que a morte não significa fim de tudo, dando margem para sentimentos de desespero. Chorar a morte de alguém é sinal de saudades e amor por aquele que partiu e isto é muito bonito. Não podemos educar os filhos para serem insensíveis ou duros de coração. Até mesmo Jesus chorou a morte do seu amigo Lázaro. Mas nosso choro deve ser um choro de quem tem fé e acredita na ressurreição e que, portanto, não se desespera, mas cultiva no coração a esperança de que reencontrará aquela pessoa um dia no céu.

A Igreja assim reza na Liturgia: “Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo o lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso. Nele brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível. E, enquanto esperamos a realização de vossas promessas, com os anjos e com todos os santos, nós vos aclamamos, cantando (dizendo) a uma só voz…” (Prefácio dos Mortos I – A esperança da ressurreição em Cristo)

É necessário que ensinemos aos nossos filhos que a morte não é um aniquilamento da pessoa como muitos materialistas que não crêem em Deus querem ensinar, mas sim uma transformação e um renascimento da pessoa para a eternidade. Isto pode realmente ser muito difícil quando a morte acontece de maneira abrupta, interrompendo uma ordem natural, seja por um acidente, uma enfermidade ou outra causa qualquer. Mas, mesmo nestas situações, não podemos nos desesperar e perder a fé. Santa Teresinha, ao morrer, disse: “Não morro, entro para a vida”. E ela tinha apenas 24 anos quando faleceu.

Há pessoas que não querem que as crianças participem de um velório e não vejam uma pessoa morta. É preciso falar da morte com naturalidade aos filhos e aproveitar o momento de um velório e dias seguintes a ele para ensinar sobre o céu, a ressurreição e a vida eterna. Deve-se sim, se possível, evitar que as crianças presenciem cenas de desespero diante da morte, pois estas podem ficara gravadas em seu subconsciente, dificultando um dia esse processo de aceitação da morte com algo natural que todos haveremos de passar.

Certa vez, numa homilia, um sacerdote fez uma comparação muito sábia que encheu o coração dos presentes de alegria e esperança diante da situação da morte. Ele comparou a passagem da vida para a morte com a chegada de um novo bebê numa família. Quando a criança está na barriga da mãe, ela está lá toda protegida, sendo gerada dia após dia, recebendo alimento, carinhos, palavras de amor e outros cuidados próprios daquela fase de sua vida. Se alguém lhe perguntasse se ela gostaria de vir à luz, ela responderia que não, pois estava muito bem daquele jeito e poderia continuar lá. Entretanto, chega um momento em que virá naturalmente à luz, em que a mãe lhe dirá: “querido(a) filho(a), eu o(a) amo muito e isso tudo que você tem aí no ventre, nem se compara com o que terá aqui junto de sua família. Vem, pois, para a luz; vem ver o sorriso de quem o(a) alimenta e espera ansiosamente por você.” Analogamente acontece conosco, uma vez que estamos sendo gerados dia após dia por Deus para a eternidade. Recebemos cuidados, carinhos, além de muitos sinais de amor e achamos que está tudo muito bom por aqui. Por mais que estejamos com idade avançada, se perguntarem para nós se desejamos partir para a eternidade, responderemos que não, pois só enxergamos o tempo presente e quase nada do mundo vindouro. Mas chegará o momento em que o Pai Eterno nos chamará e dirá: “Venha para a luz que não tem fim, venha contemplar a face e o sorriso de quem lhe sustenta e espera ansiosamente por você.” E então partiremos cheios de confiança de que lá no céu é muito melhor do que aqui na Terra, que é rica e gloriosa a herança que Deus reserva aos santos (Ef 1,18) e que os bens que Ele tem preparado para aqueles que O amam, os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram e nem o coração humano jamais imaginou (I Cor 2,9).

Zelemos por semear nos corações de nossos filhos sementes de esperança pela eternidade.

Abraços e até a próxima semana.

Heraldo

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6 respostas para Falando sobre a morte

  1. Cristiane disse:

    Bela reflexão, Heraldo!
    Outro dia, depois de ouvirmos o sacerdote de nossa paróquia falando sobre preparamos nossos filhos para o céu, meu esposo na hora do almoço comentou com eles. “Sabe por que levamos vocês a Igreja e ao catecismo? Para vocês irem para o céu!” Imediatamente – e naturalmente – o que fez tudo parecer uma piada, meu filho de 5 anos respondeu: “não agora!”…

  2. Gilberto disse:

    Achei muito didatica e ilustrativa essa forma de apresentar um tema tão dificil de abordar com crianças …. e para nós …. fantastica a analogia com o nascimento. Sob a optica de Fé é simplesmemte perfeito ….
    Abs

  3. lutfe disse:

    Muito legal o texto. Muito elucidativo. Gostei. abraços, Lutfe

  4. vreginato disse:

    Heraldo

    A analogia da morte e do nascer é conhecida e muito apropriada. Vou deixar aqui um registro que recebi hoje por e-mail que de certa forma ilustra este pensamento, dito por uma menina de onze anos que morreu de câncer, e assim relata o seu oncologista:

    artigo do Dr. Rogério Brandão, Médico oncologista

    Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional (…) posso afirmar que cresci e modifiquei-me
    com os dramas vivenciados pelos meus pacientes.

    Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.

    Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional…

    Comecei a freqüentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria.
    Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer.
    Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças.

    Até o dia em que um anjo passou por mim!

    Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções
    e todos os desconfortos trazidos pelos programas de químicos e radioterapias.
    Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar.
    Vi-a chorar muitas vezes; também vi medo em seus olhinhos; porém, isso é humano!

    Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto.
    Perguntei pela mãe.
    A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

    — Tio, — disse-me ela — às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores…
    Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade.
    Mas, eu não tenho medo de morrer, tio.
    Eu não nasci para esta vida!

    Indaguei:

    — E o que morte representa para você, minha querida?
    — Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é?
    (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.)
    — É isso mesmo.
    — Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar.
    – Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

    Fiquei “entupigaitado”, não sabia o que dizer.
    Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.
    — E minha mãe vai ficar com saudades — emendou ela.

    Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei:
    — E o que saudade significa para você, minha querida?
    — Saudade é o amor que fica!

    Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade:” é o amor que fica! ”
    Abraço

    Valdir

  5. Rubão da Maria disse:

    Caríssimos é uma alegria para o espírito poder estar lendo essas orientações tão maduras, concretas, reais e cheias de amor e de fé no partir de uma pessoa querida. Muito bom ser lembrado de como preencher essas lacunas, que ficam em nossas formações, tão materialistas e pouco cristãs. Ao contactar uma mensagem com este conteúdo evangélico, e de vida, só se pode agradecer a Deus pela bondade de ter dado alguém com essa sensibilidade tão forte de fé Nele. Que nascendo do ventre do fim da vida terrena, encontrar-se-á vida eterna, no lugar onde todos se reencontrarão. Que bom passar esta visão aos mais novos, em crianças, principalmente.
    Como é bom acompanhar esta Casa de Família, seus conteudos e colocações de colaboradores. Obrigado.

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