Crianças hiperativas e uso banalizado de medicamentos

Uma reportagem publicada no jornal “O Estado de São Paulo” no domingo passado, dia 08/08/10, abordou o assunto da hiperatividade de crianças e o uso banalizado de medicamentos como alternativa de solução para o problema. Eis um trecho da reportagem:

“O medicamento usado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) – vendido no país como Ritalina (Novartis) e Concerta (Jassen-Cilag) – está entre as substâncias controladas maisconsumidas no País. Entre 2000 e 2008, o número de caixas vendidas passou de 71 mil para 1,147 milhão – aumento de 1.616%. A alta no consumo veio acompanhada de questionamentos sobre a banalização do uso do remédio à base de metilfenidato entre crianças e adolescentes.”

Alguns especialistas justificam a alta no consumo alegando que em tempos passados havia uma demanda reprimida por tratamento desse tipo de doença; outros já acham que os diagnósticos é que estão sendo malfeitos. O que não podemos negar é que os dados apresentados acima são preocupantes e merecem uma reflexão mais acurada do problema. Não há como negar que o TDAH exista e seja um dos transtornos mais comuns em crianças, com estudos indicando sua ocorrência em 5% da população (segundo dados da mesma reportagem). Por outro lado, em meio a tanto avanço tecnológico e acesso a informações que nossas crianças têm acesso atualmente, já é de esperar que sejam mais ativas que os padrões tidos como normais há alguns anos atrás. Outro fator que colabora para o aumento do número de ocorrências do problema, ainda que indevidamente, é a atitude tomada pela grande maioria das escolas que querem nivelar a capacidade de aprendizado de todas as crianças numa determinada faixa etária. Cada criança tem seu ritmo e é preciso saber respeita-lo. Não é porque uma criança não está acompanhando bem sua turma de escola que já deva ser taxada de portadora de TDAH. É cômodo para educadores e até mesmo para os pais diagnosticarem logo o problema e partirem para um uso indevido dos medicamentos. Não dá para negar a ocorrência do problema, mas é preciso cuidado com diagnósticos precipitados.

Um outro fator que também deve se levado em conta é que hoje em dia, na grande maioria dos lares, as mães trabalham fora de casa. Então os pais acabam não tendo tempo para conviver mais de perto com o amadurecimento de seus filhos, ajudando-os a superar algumas de suas dificuldades na escola e também na convivência com seus amigos. Também é preciso que os pais aprendam a exercitar mais a paciência com seus filhos, diante de suas atitudes de inquietude e impulsividade, que muitas vezes são próprias de cada idade. O mesmo vale para muitos professores que precisam respeitar as diferenças entre cada aluno, não querendo nivelar por cima o aproveitamento de determinada sala de aula. É importante sim que as escolas desenvolvam meios para descobrir crianças com QI (quociente de inteligência) elevado, mas que não generalizem tais procedimentos.

Ressaltamos mais uma vez a importância de se tentar evitar o uso de medicamentos de maneira banalizada, com base em diagnósticos nem sempre os mais precisos. Quando realmente se constatar a ocorrência do TDAH, o remédio terá seus efeitos benéficos aos que dele precisam. Mas não sejamos precipitados nessa decisão.

Abraços e até a próxima semana.

Heraldo

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2 respostas para Crianças hiperativas e uso banalizado de medicamentos

  1. Valdir disse:

    Heraldo

    O assunto é mais que oportuno, é importantíssimo. Como médico costumo dizer aos meus pacientes: Não espere do remédio aquilo que ele não pode dar . O remédio não melhora salário, ou deixa a sogra “mais agradável”. É preciso fazer a nossa parte.
    Independente de exirtir o problema de saúde, e felizmente remédios para muitos transtornos, o comprometimento pessoal é sempre fundamental. Particularmente em situações como o TDAH isto é uma realidade inegável.
    O problema é que atualmente estamos nos acostumando a querer conseguir grandes mudanças comportamentais mediante o uso restrito de comprimidos. Como disse, eles (os remédios) ajudam muito, mas não podemos cobrá-los do que são incapazes.
    No TDAH o acompanhamento com profissionais bem preparados e o uso adequado da medicação, quando necessária, não pode prescindir da participação dos pais, que deve ser ainda mais atenta e comprometida. Esta atitude é uma manifestação de amor dos pais, e AMOR, ainda não se vende em farmácia ou é produzido em laboratórios.

    Abraço

    Valdir

    P.S: mais uma vez agradeço a sua valiosa participação na Semana da Família na Paróquia Nossa Senhora do Brasil.

  2. Lutfe disse:

    Concordo com o texto e com o comentário. De grande valia a informações postadas sobre o tema. abraços a todos, Lutfe

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