Carnaval: Solta a Barrabás e Crucifica Jesus Cristo

Esta coluna tem ficado um pouco escassa para tratar de todos os temas que gostaria de compartilhar com nossos leitores.
De fato, o tema dela é bastante abrangente e caberia um artigo por dia, ou até mais. Tratar sobre a família pelo mundo é bastante abrangente e tanta coisa acontece que vários redatores não dariam conta do recado.
Como este blog é feito sobretudo para um público brasileiro, procuro colocar pontos que tenham relação ou que interessem diretamente nossos conterrâneos, ainda que a notícia ou o acontecimento tenha se dado fora do Brasil.
Hoje porém, minha contribuição é meio importada e meio brasileira. Desde o ano de 2000 tenho o prazer e a honra de conhecer Dom Farès Maakaroun, um arcebispo nascido no Líbano nomeado Eparca da comunidade da Igreja Católica Apostólica Greco-Melquita do Brasil.
Antes que alguns de nossos leitores se assustem, o Rito Greco-Melquita Católico foi criado por São João Crisóstomo e segue desde seus primórdios até nossos dias a fidelidade ao Magistério e obediência ao Papado.
Recebi de Dom Farès uma meditação que ele escreveu a respeito das festividades carnavalescas. Achei muito apropriadas para o início da Quaresma e por isso tomei a liberdade de publicá-la integralmente. Assim como ele o fez, espero que isso possa ajudar tantas famílias brasileiras.
Com a palavra Dom Farès:

CARNAVAL: SOLTA BARRABÁS e CRUCIFICA JESUS CRISTO.

São Pedro Claver, o Apóstolo dos Negros, Padre Jesuíta, no carnaval:
Um oficial espanhol viu um dia São Pedro Claver com um grande saco às costas.
– Padre, aonde vai com esse saco?
– Vou fazer carnaval; pois não é tempo de folgança?
O oficial quer ver o que acontece: acompanha-o.
O Santo entra num hospital. Os doentes alvoroçam-se e fazem- lhe festa; muitos o rodeiam, porque o Santo, passando com eles uma hora alegre, lhes reparte presentes e regalos até esvaziar completamente o saco.
– E agora? – pergunta o oficial.
– Agora venha comigo; vamos à Igreja rezar por esses infelizes que, lá fora, julgam que têm o direito de ofender a Deus livremente por ser tempo de carnaval.
Amados irmãos, filhos e filhas,
Onde está a Maldade em as pessoas participarem das festas carnavalescas?
Seria este entendimento um exemplo típico de puritanismo?
Estaríamos vendo maldade onde não há?
Comecemos pela Origem da Palavra Carnaval: Estudiosos divergem quanto à origem da palavra Carnaval. Para uns, Carnaval vem de Carrum Navalis, os carros navais que faziam a abertura das Dionísias Gregas nos séculos VII e VI a.C.
Para outros, a palavra Carnaval surgiu quando Gregórios I, o Grande, em 590 d.C. transferiu o início da Quaresma para a quarta-feira, antes do sexto domingo que precede a Páscoa.
Ao sétimo domingo, denominado de “qüinquagésima” deu o título de “dominica ad carne levandas”, expressão que teria sucessivamente se abreviado para “carne levandas”, “carne levale”, “carne levamen”, “carneval” e “carnaval”, todas variantes de dialetos italianos (milanês, siciliano, calabrês) e que significam ação de tirar, quer dizer: “tirar a carne”.
Então, o cristão pergunta:
Qual o sentido de festejar algo que, de origem, objetivava “tirar a carne”?
Qual o sentido de brincar e festejar o que não coloca na carne do Homem, aquilo que lhe traz dignidade, e orgulho de si mesmo?
Uma outra corrente, essa menos conhecida, citada no livro – A Cultura Popular na Idade Média – contexto de François Rabelais, de Mikhail Bakhtin, diz que: “na segunda metade do século XIX, numerosos autores alemães defenderam a tese segundo a qual carnaval viria de Kane ou Karth ou ”lugar santo” (isto é comunidade pagã, os deuses e seus seguidores) e de Val ou Wal ou morto, assassinado, que quer dizer, procissão dos deuses mortos, uma espécie de procissão de almas errantes do purgatório, identificada desde o século XI pelo normando Orderico Vital, como se fosse um exército de Arlequins desfilando nas estradas desertas, buscando a purificação de suas almas. Essa procissão saía no dia do Ano Novo, durante a Idade Média”.
Então, o cristão pergunta:
– Qual o valor de festejar uma cultura primitiva, que nos faz sentir vergonha de estar brincando nos desfiles de escolas de samba, como que fazendo uma procissão de almas errantes do purgatório?
– Não é melhor festejar a vida que se vê e toca nesta realidade visível?
A origem das primeiras festas carnavalescas ainda é motivo de polêmica. A folia, para alguns, iniciou-se como uma espécie de culto feito para louvar uma boa colheita agrária, onde as pessoas, mascaradas, dançavam e bebiam.
Os homens, no momento da festa se desligavam das coisas ruins, e saudavam o que lhes parecia um bem com danças e cânticos para espantar as forças negativas que prejudicavam o plantio.
Este é o modelo mais simples de carnaval e consta de danças e cânticos em torno de fogueiras, incorporando-se aos festejos, máscaras e adereços.
Na medida em que as sociedades evoluem para a divisão de classes, os festejos logo se ligam a totens e deuses.
Então, o cristão pergunta:
– Não é melhor rezar e agradecer a uma força superior que nos protege, para termos esperanças, na alegria e na tristeza, do que se desligar das coisas ruins, e viver apenas alguns momentos de ilusão?
– Negamos em tempos de carnaval que “as obras da carne são opostas às do espírito”?
– Negamos que as obras da carne geralmente gravitam em torno de dois eixos: a falta de fé e o tempo finito dos homens, totalmente descompromissadas consigo e com o outro?
Outra hipótese difundida entre pesquisadores é a de que o Carnaval seja uma manifestação popular anterior à Era Cristã, que se iniciou na Itália, tendo o nome de Saturnálias – festa em homenagem a Saturno (Saturno, deus da agricultura dos antigos romanos, identificado como Cronos pelos gregos, pregava a igualdade entre os homens e foi quem ensinou a arte da agricultura aos italianos) e a outras duas mitologias greco-romanas, Baco e Momo. As comemorações eram realizadas em Roma entre os meses de novembro e dezembro. Na ocasião, ainda segundo os relatos e pesquisas, havia uma aparente quebra de hierarquia social, quando todos se misturavam em praça pública.
Então, o cristão pergunta:
– Qual o sentido e o valor de uma igualdade momentânea, e mentirosa?
– Qual o significado de festejar cultos cômicos e não sérios?
– Sentimos felicidade em festejar e brincar com situações invertidas, onde homens e mulheres trocam os seus papéis, numa institucionalização da desordem, onde reina a folia?
– Quando somos mais dignos: ao nos fazermos filhos de Deus, batizados, ou quando abrimos mão da nossa condição de Homens pensantes e nos comportamos como seres a serviços de suas intemperanças, de suas paixões deslocadas de se próprio sentido?
– Quando um cristão não brinca o carnaval, significa que está abrindo mão das coisas alegres da vida?
– Desde quando a alegria do mundo, essa que nos oferece o mundo, consegue nos fazer alegres mesmo nas tristezas?
– Desde quando a alegria do mundo nos torna confiantes no Amor verdadeiro e duradouro? A alegria do mundo abre a porta das Graças, ou escancara a porta do Inferno?
Amados meus, São João Crisóstomo na homilia “Sobre as prostituições” 2, PG 51, 210 diz algo que cabe muito bem aplicarmos a certos costumes, tais como o carnaval, que levam muitos para o caminho da ausência de pensamento em seus atos:
“Que não me diga alguém que é costume; onde o pecado ousa aparecer, não te lembres do costume, mas, se suspeitos os eventos, mesmo que seja antigo o costume, elimina-os; mas, se não forem frutos da malícia, mesmo que não sejam costumeiros, introduza-os e plante-os bem fundo.” (S. João Crisóstomo, Sobre as prostituições, 2)
“Como podem chamar-se divertimentos as bebedeiras, as noitadas, os bailes, e todas as variadas desonestidades com e sem máscara? “Não divertimentos – clama S. João Crisóstomo – mas sim pecados e delitos.”
Conhecem o episódio contado por Tertuliano? – o mais importante escritório eclesiástico, jurista, advogado do segundo século do cristianismo – Daquela mulher, que ao entrar em certo ambiente para os divertimentos carnavalescos (saturnálias), foi invadida pelo demônio. Arrastada perante o Bispo, este exorcizando-a, forçou o espírito maligno a dizer por que ousara molestar aquela mulher, que era boa e religiosa. “Se fiz isto, respondeu o demônio, tinha o direito de fazê-lo. Invadi-a porque surpreendi-a no que é meu.”
Ou talvez conheçam o que dizia Santo Afonso: que quando o pecador, para satisfazer qualquer paixão, ofende a Deus, converte em sua divindade essa paixão, porque nela põe o seu último fim.
Assim diz São Jerônimo: “Aquilo que alguém deseja, se o venera, é para ele um deus. Vício no coração é ídolo no altar.”
Diz bem São Jerônimo: “nada há mais infeliz do que a felicidade dos que pecam!”
Amados meus, vamos juntos ser neste tempo de carnaval Amigos de Jesus.
Se o carnaval fosse uma coisa boa não consolaria todos os corações e mentes no dia seguinte?
Amém Aleluia!
†Dom Farès Maakaroun,
Arcebispo da Igreja Católica Apostólica Greco-Melquita no Brasil.

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Sobre Miguel

Empresário, estudou letras em Paris e cursa Direito na Faculdade de Direito Mackenzie. Atua desde muito jovem em diversas associações católicas e movimentos em defesa da vida e pela família.
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