Cinedebate – Fime: Matrix – Andy e Lana Wachowski

Olá a todos os leitores do Casa de Família!!! Bem vindos ao “No sofá da sala”!!!Vamos relembrar um clássico do cinema, filmaço (como diria um amigo meu) para alguns e nem tanto para outros… Nem tanto, pois não pensaram bem no filme. Tenho certeza de que depois desse brinde do nosso amigo Rafael Ruiz, irão mudar de idéia!!!

Antes disso, que tal lembrarmos um pouquinho do filme?

POR QUE MATRIX TEM PODER DE ATRAÇÃO?

Por Rafael Ruiz, Professor de História de América Colonial da Universidade de São Paulo
O mundo de Matrix, um mundo que nos identifica e nos nomeia enquanto pertencentes ao “mundo moderno”, está dividido em dois: aqueles que confiam nas máquinas e aqueles que confiam, que ainda confiam, nas pessoas.O mundo da máquina é o mundo, como diria o agente Smith, com que a gente sempre sonhou. As coisas dão certo, não há nenhuma dúvida, tudo, absolutamente tudo, está sob controle. Já o mundo das pessoas é exatamente o contrário: há muitos furos, há inúmeras incertezas, e tudo, praticamente tudo, está fora do nosso controle.

“Não gosto de pensar que não controlo a minha vida”. É a resposta de Neo no primeiro encontro com Morfeus. É a grande sedução e o grande engano que a Modernidade ofereceu à sociedade humana. Desde que Francis Bacon e Descartes assentaram os princípios do “conhecimento moderno”, a técnica tem realizado inúmeros e inegáveis progressos. O preço a pagar tem sido alto: estamos correndo sério risco de deixar de ser pessoas e nos convertermos num aglomerado de Smiths, porque acreditamos que podemos ter o controle sobre a nossa vida.
Será necessária uma longa aprendizagem, que passa pelo sofrimento, como os clássicos gregos sempre afirmaram, para Neo se convencer de que é melhor se manter humano, continuar sendo pessoa, correndo o risco de viver num mundo incerto, inseguro e, tantas vezes, submetido a falhas.

O decisivo para sair da Matrix é seguir o “Coelho Branco” para chegar até a festa onde Neo se encontrará com Trinity. Por que essa referência a Lewis Carrol e à sua Alice no País das Maravilhas? Porque o Coelho Branco somos nós, tantos de nós, correndo apressados, angustiados, esbaforidos até… “Estou atrasado! estou atrasado! estou atrasado!”, sem saber o sentido de tanta pressa. Só que, para seguir o Coelho Branco, para ter uma reação de estranhamento diante ele, para que realmente a sua pressa nos chame a atenção, é preciso que nos tenhamos feito alguma vez essa pergunta: “Para que tudo isso? Aonde estou querendo chegar? Por que tudo tem de ser assim tão….tão…” Nessa altura não se encontra o adjetivo que defina o mundo em que estamos, mas se encontra a porta de saída dele. É o que Trinity explica para Neo, na festa: “Eu sei por que você vive assim, eu sei por que você não consegue dormir à noite… É a pergunta, Neo. A pergunta é o que nos move”.

O difícil, o verdadeiramente difícil de realizar, é romper com o mundo mecanizado e clean oferecido pela Matrix, onde temos certeza de tudo, até das possíveis falhas que possam acontecer, como o déjà vu, e adentrar num mundo de relações e afetos interpessoais onde o que impera é a incerteza e a insegurança. É por isso que o primeiro contato entre Neo e Morfeus acaba num fracasso. Morfeus fala ao celular tentando ajudar Neo a escapar da perseguição dos Smiths. Se prestarmos atenção, veremos que Morfeus exige que Neo confie nele mais de dez vezes. Na última, quando se vê diante da janela, a resposta de Neo é terminante: “De jeito nenhum”. E os Smiths conseguem agarrá-lo.

O “admirável mundo novo” que seria criado pelos tempos modernos carregaria em si uma profunda desconfiança do homem e uma profunda confiança no sistema dominado pela técnica e a racionalidade. A Modernidade nos ensinou que, se quiséssemos viver em sociedade e ser ao mesmo tempo felizes, não poderíamos depositar a confiança no homem, comprovadamente um dos seres mais falíveis do planeta, se não o mais. Tínhamos de optar por confiar na razão pura, na técnica precisa, na ciência objetiva. Uma das conseqüências mais funestas do triunfo da “razão eficiente” no mundo contemporâneo é o argumento de que a simples razão, a pura técnica se justificam porque “é assim que a coisa funciona”. O que Matrix resgata em cada um de nós é precisamente a pergunta: “E se as coisas não fossem assim?” Basta olhar para uma grande parcela da humanidade para dar-se conta de que nem todos se importam com esse tipo de argumentos, de que a eficácia e a eficiência não são os valores supremos para a maioria das pessoas, de que são muitos os que não estão dispostos a pagar o preço que a técnica cobra do mundo moderno: a renúncia a continuar sendo humanos.

Matrix fala do mundo virtual e de programas que se autocarregam, e esbanja uma enorme quantidade de efeitos técnicos e especiais. Mas fala também de que se torna preciso o reencontro do homem consigo mesmo. Um homem que não esteja cindido entre razão e sentimento, objetividade e subjetividade, eficácia e ineficácia. Matrix atrai porque tenta responder a um novo modelo de sociedade em que seja possível a existência e a compreensão do homem como um todo; em que não seja necessário proceder a um esfacelamento do próprio homem para poder viver; em que os laços sentimentais e afetivos não entrem necessariamente em choque com raciocínios e argumentos técnicos; em que se possa viver como homens e mulheres, mesmo que às vezes, ou mesmo muitas vezes, “a coisa não funcione”, porque como Morfeus explica a Neo: “há muita diferença entre conhecer o caminho e percorrê-lo”.

Matrix atrai porque propõe o homem como um sistema aberto e em frágil equilíbrio tanto perante o desconhecido, o inefável e o imprevisível, como perante o engano, a mentira e o erro, que são as dimensões e o espaço onde pode exercer-se a liberdade.

Parafraseando uns versos de Walt Whitman perante o mundo vazio e sórdido que lhe tocou viver, Matrix nos força também a perguntar-nos, como o poeta, perante o mundo que nos tocou viver: “O que há de bom em tudo isto? Resposta: que você está aqui; que a vida existe e que há identidade. Que o poderoso jogo da vida continua, e você pode contribuir com um verso”. Mas, para dar ao mundo o nosso verso, é preciso que queiramos continuar sendo humanos, fragilmente humanos.

Fonte: Quadrante

Link do filme no IMDB (Internet Movies Database): http://www.imdb.com/title/tt0133093/

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Sobre Familia Guarita

Zé (José Armando - engenheiro civil) e Malu (Maria Lucia - médica fisiatra) se casaram em junho de 2009 na igreja Nossa Senhora do Brasil. Ao se inscreverem para casar nesta igreja, conheceram o pároco Pe Michelino, que os chamou para participar da Pastoral da Família. Durante seus 1 ano e 9 meses de noivado, e atuais 2 anos de casados, eles vem participando das palestras quinzenalmente, tal como de sua organização. "Estes 4 anos de participação na Pastoral da Família fizeram com que aprendêssemos muito e esperamos agora poder contribuir bastante com esse novo meio de aprendizado que é o blog Casa de Família"
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2 respostas para Cinedebate – Fime: Matrix – Andy e Lana Wachowski

  1. Lutfe disse:

    Muito legal o texto. A contribuição do texto sobre a fragilidade humana é sensacional. Precisamos de Deus para nos guiarmos nos caminhos pedregosos da vida!!!
    Abraços,

  2. Pingback: No Sofá da Sala… para repassar 2010!!! | Casa de Familia

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