FAMÍLIA E CRISE ECONÔMICA

“ A Palavra acreditada, anunciada e vivida impele-nos a comportamentos de solidariedade e de partilha. Ao louvar o Senhor pela ajuda que as comunidades cristãs souberam oferecer com generosidade a quantos bateram às suas portas, desejo encorajar todos a dar continuidade ao compromisso de aliviar as dificuldades em que se encontram hoje numerosas famílias provadas pela crise econômica e pelo desemprego.” Papa Bento XVI . L’OSSERVATORE ROMANO 09/01/2010.

As palavras pronunciadas pelo Papa no início deste ano muito nos leva a pensar em quais dificuldades vivem hoje as famílias, e por quais motivos.  Há várias décadas a sociedade fomenta uma cultura do consumismo e do hedonismo, onde a cada dia se privilegia mais os que possuem a capacidade de ter (comprar) do que os que se esforçam em crescer na sua constituição de pessoa. As famílias que outrora eram elogiadas pelo número de filhos fecundos, hoje assustam, quando não passam por ridículas diante dos olhares daqueles que julgam um absurdo “colocar tantos filhos” no mundo. Se no passado as famílias numerosas obtinham algum favorecimento nos seus tributos, quer na educação, como na saúde e lazer, hoje pelo contrário são tributadas quase que por castigo. Tudo está cada vez mais sendo confeccionado para as pessoas que moram sozinhas, ou um casal quiçá tenha se aventurado a ter um filho. Não há mais descontos pela prole numerosa. Entenda-se numerosa qualquer número que seja superior a dois!

Desta forma a crise econômica fere frontalmente aqueles que diante da fé, corajosamente levam a diante o projeto da liberdade de ter responsavelmente o número de filhos que lhe sejam permitidos educar com dignidade. Dignidade que não significa ter uma TV para cada um, um celular último modelo para cada um, a roupa de griffe mais cara, ou visitar a Disney . Mas dignidade que significa educar os filhos para se tornarem pessoas responsáveis, e livres, com espírito de solidariedade e melhor capacidade de compreensão sobre a cidadania.  Filhos que possam ter a oportunidade de conhecer e viver a fé passada por seus pais.

Mas estas dificuldades não estão somente no campo material. Alastra-se para o modelo de moralidade onde o egoísmo supera o altruísmo, e ser generoso é sinônimo de ser bobo. Observar as tradições está ultrapassado, anacrônico, e o futuro é uma incerteza que só interessará se chegar a se tornar um presente. Deixar um mundo melhor para quem virá é problema para quem sobreviver, pois o importante é “viver bem” o dia de hoje, nem que para isto seja preciso acabar com o mundo!

A solidariedade que nos pede o Papa, certamente passa pelas necessidades materiais que são pertinentes a existência humana, como recentemente temos assistido no Haiti. Contudo, não podemos fechar o nosso horizonte aí, é preciso ir mais longe. É preciso perseverar no bem que conduza a formação humana de verdadeiros filhos de Deus.

Termino com o diálogo que ouvi de dois amigos:

“ – Você está maluco em colocar filhos para sofrer neste mundo!” Dizia um. Ao que retrucou o outro.

“- Eu prefiro acredito que os filhos que Deus me confiou deverão melhorar este teu mundo maluco.”

O homem vive a sua esperança. Não a esperança da incerteza, mas da certeza na palavra de Deus.

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Sobre vreginato

Casado e tem três filhos. Médico e Terapêuta de Família. Professor de Bioética, Históra da Medicina e Espiritualidade e Mediicna na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), membro do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da Unifesp, Coordenador da Pastoral da Família da Paróquia Nossa Senhora do Brasil
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5 respostas para FAMÍLIA E CRISE ECONÔMICA

  1. miguel disse:

    Caro amigo,

    Um tema muito bem levantado e oportuno.
    A solidariedade que devemos nos empenhar é sobretudo aquela que leva almas desviadas do reto caminho para o bom termo.
    Parabéns!

  2. Marco disse:

    Ola Valdir

    Otimo post !! sua conclusão foi perfeita: não existe esperança na incerteza. Aqueles que duvidam de um mundo melhor, realmente, já desisitiram dele….

    A fé é a luz que nos mostra o caminho.

    Parabens !

  3. Lutfe disse:

    Valdir, que texto maravilhoso. A primeira pessoa com quem compartilharei este texto é com a minha pessoa. Definitivamente, temos que saber como educar nossos filhos. Abraços, Lutfe

  4. Bruno disse:

    Muito pertinente este tema!

    1) Se as famílias continuarem com poucos filhos teremos um futuro com maioria de pessoas idosas economicamente improdutivas e dispendiosas para a própria sociedade que gerou isso.
    2) Se as famílias continuarem moralmente desestruturadas haverá uma onda de pessimismo quanto à validade desses valores morais.

    Esse é um argumento que deveria causar alguma reação em qualquer pessoa de qualquer credo, ou sem crença alguma. Cabe a nós cristãos, que conhecemos a Verdade que é Jesus, defender esses valores através do exemplo.

  5. Heraldo disse:

    Caro Valdir,

    Constatamos isso em nossa família, com nossos 3 filhos. Realmente é uma luta no campo econômico, mas também no campo da moral, onde a crise de valores se alastra como praga e muito rapidamente nos ambientes em que vivem nossos filhos, sejam escolas ou mesmo com os amigos no condominio. Mas continuemos firmes na esperança de que estamos plantando sementes para um mundo melhor.
    Obrigado por seu artigo.

    Abs.

    Heraldo

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